Deoclécio, o
“coach” do Alegrete
Pois dizem que no
século passado havia lá pela capital do Rio Grande, um retratista de corrida de
auto que, pelo seu incontestável “talento e atualização de equipamentos”, era o
preferido de 99,9 por cento dos pilotos de carreira de auto, até das baratas.
Como as câmaras que usava não eram assim, digamos, as mais modernosas, como
seus métodos de anotações e planilhas de quem já fora ou seria fotografado
naquela corrida também eram do tempo da pedra lascada, um desinfeliz teve a
ideia de apelidar o retratista de “Lambe-Lambe”. Como os “Nutella” não sabem, “Lambe-Lambes”
eram aqueles fotógrafos de praças, que ficavam tirando retrato ao ar livre. Quando
lhes faltava água, na pressa, em algumas etapas de revelação dos retratos,
usavam a saliva (cuspe para os sem
frescura) e lambiam as fotos para a distribuição do líquido ficar homogênea.
As
fotos não ficavam o suprassumo da tecnologia de então, mas que duravam até um
ano, ah, isso duravam ...
O
tal “Lambe-Lambe” fazia umas fotos não
muito ruins, tendo efetuado a documentação de todas as corridas de velocidade
da década de 80 e início de 90. Como o sujeito tinha um certo preparo
intelectual e sabia acolherar as letras e ajojar as palavras em frases, lá
pelas tantas foi convidado para escrever a penúltima página dum jornal
especializado, o “Esportemotor”.
Era
tal página mais voltada à abordagem das pencas motorizadas sob um ângulo mais
humorístico e irônico do que, propriamente, sério. E não é que agradava?!
Lá
pelas tantas o fotógrafo-escrevinhador, na falta de assunto, (e qual escritor
já não enfrentou a situação?) inventou de criar em sua imaginação um sujeito
bem gaudério, duma cidade bem raiz, para fazer parte do mundo automobilístico.
Nasceu
o Deoclécio, lá por 1986, um peão de estância que se apaixonou pelas corridas
de baratinhas, quando o Nelson Piquet estava por cima da carne seca.
Tanto
o peão gostava de corridas que encasquetou que também seria piloto. A primeira
coisa que fez, então, foi confabular com seu Ponciano, estancieiro louco de
buenacho e pedir para dar umas tratoreadas, na hora de fazer alguma pastagem,
transportar moirões e rolos de arame para um fundo de campo.
-
Só pra i me ambientando com as cosa!
-
Mas Deoclécio, tu é o melhor capataz que já tive e agora me vem querendo
crescer que nem rabo-de-cavalo, pra baxo? Ora, virar tratorista agora, para
adespoi ser piloto de Fórmula 1 ... Cada ideia ...
-
Mas patrão, não tô de brinquedo. Degavar nas preda eu chego lá!
Como
era homem da “velha templa” e já escasseavam os ditos pelo pampa a fora, seu
Ponciano deu um jeito e autorizou o tratorista a começar alguns treininhos
básicos com o capataz.
Num
tapa se mostrou taura nas tratoreadas e assim foi misturando trabalho de
rodeios, marcações, banho de carrapaticida, cura de bicheiras, coisa e tal, com
andanças de trator.
E
tinha mais, nem que a vaca tossisse que ele saía pro campo em manhã de domingo,
na hora da Fórmula 1.
-
Les garanto, um dia eu chego lá.
...
Não
chegou a tanto, mas não falhava a nenhuma “Doze Horas de Tarumã” e, por
incrível que pareça, chegou até a participar duma delas, como piloto dum
Chevette.
Como
ficou muito amigo do fotógrafo, por ser o retratista também piloto de avião,
começou a se interessar pelos “aparelhos”. Andou até iniciando um Curso de PP,
que não chegou a terminar, mas aprontou
algumas, inclusive um voo solo de Ipanema, o mais popular avião agrícola do
Brasil.
Mas
o tempo passa, as pessoas que levam uma vida rústica, desgastam-se muito antes
do que os povoeiros. O Deoclécio teve que abandonar as lidas de campo e, com as
economias que fizera como capataz, comprou uma casinha na entrada do Alegrete, quem
vem das bandas de Maçambará/Itaqui pela Estrada do Meio.
O
índio era grosso, mas nunca foi burro. Inscreveu no EJA (Educação de Jovens e
Adultos) e, ao contrário do que muitos pensavam, foi pra já que conseguiu
aprovação no II grau.
Sua
letra era feia como briga de foice no escuro, seu raciocínio escolar um tanto
lento, mas sempre um pouco acima do esperado e, quando todos se deram conta o
quera estava prestando vestibular.
E
não é que passou?
Começou
um curso de administração de empresas, mas não se emparelhou com as matérias e
os professores. Como sempre foi um sujeito observador e gostava de analisar o
jeito da peonada e, ainda, por estar de namoriscos com uma prenda vinte e cinco
anos mais nova, estudante de psicologia, por influência dela e, segundo o
“Lambe-Lambe, por medo de perder a prenda para algum frangote colafina,
resolveu encarar a tal faculdade.
Com
sua prática de vida, com o tempo que tinha para analisar os parceiros de
trabalho, começou a combinar o aprendizado campeiro com a teoria acadêmica.
Para
encurtar, o sujeito terminou o curso, mas não entrou para a área da psicologia
propriamente dita, pois achou que havia um bom nicho de mercado neste negócio
de “coach”.
Por
mera curiosidade ou não, o fato é que, num vapt-vupt, o seu escritório/consultório
estava sempre atopetado de gente.
Um
de seus primeiros contratantes foi um fazendeiro/granjeiro que se endividou até
a raiz das unhas, com cinco anos de seca nas lavouras e pastagens.
-
Doutor, tô numa pua braba. Se vendê metade das terra, ainda fico devendo a
outra metade. Mas não sou de entregá a rapadura. Vou calçá o pé e achá um jeito
de saí desse brete.
-
Por premero: não sou doutor. Fiz esse tal curso, mas continuo sendo um peão de
estância e capataz que sempre deu atenção ao jeito com que cada um enfrenta as
peleia. O Curso só me deu a certeza de que
quagi tudo que eu sabia tinha respaldo intelectual-científico.
-
Esse tal de “coche” de que tanto falam, nada mais é do que um sujeito de tutano
que não se afroxa assim no más. E tenta passar pros otro o mesmo jeito de
continuar peleando.
-
Mas hombre, eu já não consigo dormi,
pensando no monte de conta que tenho pra pagá. Além do financiamento,
tem uns adubo e defensivo que comprei direto com um amigo. Amigaço desde piá.
Como é que eu vô deixa o homi pendurado no pincel?
-
Mas tchê, quem é que tem dinheiro a receber, ele ou tu?
-
Ele, claro, que espera que le pague o quanto antes. E como é que vô estraga uma
amizade dessas?
-
Tem falado com ele?
-
Seguidito no más. Uma ou duas veiz por semana, pra toma uma cerveja. Mas eu
fico até com vergonha de me deverti com um sujeito que espera um monte de dinhero
que devo.
-
E ele se queixa de que não dorme dereito?
-
Nunca.
-
Então, bagual, larga de sê burro. Se ele que tem que recebê os troco dorme loco
de bem, por que tu é que perde o sono?
-
Como diz aquele gordo, o Sérgio Cortella, tu não tá fazendo o teu melhor?
-
Mas claro que tô.
-
Taí, seu bocó, larga de sê imbecil, toma um gol de canha antes de dormi, pensa
numa das guria lá da casa da luz roxa, esquece as conta. Foi tu que fechô as
tornera do Céu e causou a seca? Não, não é? Te atraca a trabalhá, planta o que
dé, paga o que pudé e não me aparece
aqui com essas chorumingança.
Dizem
que o “coatchê” seguiu os conselhos, deu chuva na safra seguinte, ele foi
pagando aos poucos e, três anos, depois estava zerado, feliz da vida e, se
alguém ousasse falar mal dum “coach” perto dele, era certo de sair, no mínimo,
com o lombo riscado.
E
a fama do Deoclécio foi crescendo, crescendo.
Acompanhe
a evolução do peão, piloto de corrida e de avião que está ficando milionário
com a dívida do agro gaúcho ...
Qualquer dia desses o Lambe-Lambe-Retratista publica novo “capítalo”
desta epopeia gauchesca que, dizem, até já
tem cinco redes de TV interessadas em
comprar o roteiro para produzir séries, novelas, filmes, essas “cosa”.
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