domingo, 6 de setembro de 2026

6 de Setembro de 2026 - Opinião e Dicas

 

                        Pane de Profundor – Apavorante Experiência

              Se  tens um inimigo daqueles intoleráveis, que não desejas ver nunca mais, nem para ele deseja esta aventura. Só quem já sobreviveu a uma delas sabe o quanto o sujeito borra as cuecas, tentando levar o avião a um pouso sem morte ou ferimentos graves.

            Há muitos anos atrás o saudoso Fernando Velho Costa enfrentou uma e conseguiu levar o ultraleve (avião muito mais sensível a ventos, térmicas, etc.) para um pouso em que o tequinho ficou quase destruído, mas o guri de uns nove anos que o acompanhava saiu ileso. O comandante o instruíra para encolher-se todo o que distribuiu a energia do choque. O Costa, pela posição de pilotagem, com as pernas e pés estendidos, ao bater no solo, recebeu a maior parte do impacto na coluna lombar, fraturando uma vértebra, com sorte não atingindo a medula. Recuperou-se e em pouco tempo estava voando de novo.

            Para variar, não faltaram os pilotos de mesa de bar dizendo que deveria ter feito isso, outros,  que poderia ter feito aquilo e assim por diante.

            Até havia alguns que estavam certos. Falavam que, por ser o ML um ultraleve com motor em cima e atrás da asa, ao cortar-se a aceleração, se esta for brusca, faz o nariz subir violentamente, o que ocorrera, e o tequinho subiu e estolou a uns quatro ou cinco metros de altura, talvez.

            Só que os pilotos de mesa não se deram conta de que o Costa viera com o avião de uma boa distância, mantendo-o nivelado sem grandes problemas, apenas com o compensador e acelerador. Somando-se a isto as características da única cabeceira adequada para pouso: uma aproximação que exigia o sobrevoo de  linha de alta tensão sobre uma coxilha, para depois mergulhar rumo à pista numa depressão do terreno, uns vinte, trinta metros – considerando desnível do solo e a linha de alta tensão (daquelas de torres metálicas, de tão altas).

            Pilotar em cima de mesa de bar é coisa que até eu sei fazer ...

            Pois bem, há poucas semanas houve aquela pane de profundor em que o piloto conseguiu levar o avião agrícola até o aeroporto de Alegrete.

            Este manicaca escrevinhador, quando viu as imagens, não por se achar grande piloto, mas pela experiência (inclusive com uma pane destas) achou que teria havido uma falha na hora do pouso, mas nada falei ou escrevi, em respeito ao comandante, que já fizera muito em trazer avião a pouso, com danos materiais e físicos, estes sem riscos de morte.

            Depois de haver passado a pior parte da recuperação, ao dar entrevista, ele mesmo, segundo consta, admitiu ter falhado na hora do pouso.

            E o Lambe-Lambe não toca no assunto para desvalorizar o comandante, mas  contribuir para a preservação de vidas.

            Já publiquei a minha experiência com esta maldita pane. Só não cheguei em casa todo cagado, porque antes dos voos sempre como pouco ...

            Mas, voltando à experiência do Fernando Velho Costa, logo que aconteceu, inventei de praticar, com muito cuidado, tentativas de pouso sem usar o profundor. E meu “aparelho” era um ultraleve Netuno, com motor de Fusca, um arrasto brutal, estol a trinta milhas e VNE de sessenta ...

            Como fiz: primeiramente, lá pelos dois mil pés, tirava as mãos do manche, e tentava manter o teco em voo nivelado, usando apenas a manete, pois o dito não tinha compensador nem flaps.

            No início, até que precisei usar o manche, mas fui pegando o jeito. De vereda estava conseguindo manter o pássaro voando nivelado.

            Ah, repisando o velho ditado e sem machismo: avião é masculino, mas também é máquina – feminino, portanto. Assim, tem que ser tratado com muito carinho, suavidade, respeito. Neste tipo de pane, então, nem se fala. Esqueça movimentos bruscos de comando, acelerações – pegue leve sempre.

            Fui praticando, praticando. Quando me dei conta, levava o desajeitado Netuno até quase o pouso, mas nunca arrisquei o toque. O mais perto da pista que cheguei deve ter sido a um ou dois metros de altura. Aí pensei: numa pane real, nessa altura, acho que pouso sem me quebrar todo e não pousar  foi decisão acertada.

            Um outro piloto fizera o mesmo treino e inventou de fazer pouso completo: resultado – pilonagem sem grandes danos além de hélice, abertura de motor, essas coisas.

            Pois no causo deste manicaca escrevinhante, tive muita sorte que a pane ocorreu próximo duma pista agrícola com setecentos metros, a qual eu já conhecia a do Moacir Moro.

            O teco-teco era um ultraleve Kitfox, que originalmente vem sem compensador, mas que possui flap de grande eficiência. Se você dá flap, automaticamente o nariz desce e vice-versa. Se coordenar flap e motor, é quase como ter o faltante compensador.

            E aqui confesso ter me dado conta apenas agora de que o flap poderia ter auxiliado muito na aproximação para pouso, o que não aproveitei. Estava tão apavorado, que me concentrei no pouso controlado apenas pela manete. Mas gritava de mim para migo:

            - “Lambe-Lambe”, não tira motor de repente. Se tu fizer isso vai alegrar os médicos ou o pessoal do pijama de madeira!!!

            E foi o que fiz.

            Não é que deu certo?!

            Moral da história: claro que é um treinamento de certo risco, isto de aproximar sem usar o profundor. Mas está provado que estas panes acontecem.

Por que, então, não treinar os pilotos para enfrentar essa aterrorizante possibilidade?

            Pessoalmente nunca recebi este tipo de treinamento. Fi-lo porque qui-lo – como dizia o Jânio Quadros, por minha conta e risco.

            E não é que me salvou?

           Mesmo que você não haja treinado, lembre-se: suavidade no motor, no compensador. Se não houver obstáculos e o motor estiver saudável, venha descendo com muita suavidade a grande distância da cabeceira. Chegue nela já quase ao nível do solo.  Vá desacelerando muito suavemente e faça um pouso de pista, com toda a mansidão possível.

            Lembre-se: se tirou o motor ou picou demais o compensador, sem profundor, a baixa altura, a inércia fará o avião dar um placaço daqueles ... É que a reação aerodinâmica foi menor do que a ação inercial ...

 

            Suavidade, sempre suavidade.

 

            IMPORTANTÍSSIMO: Se algum piloto mais experiente e capacitado que eu e a grande maioria é, caso tenha notado alguma dica errada ou perigosa, por favor entre em contato, pois em se tratando de tal assunto, qualquer erro pode cobrar muito caro.

           

domingo, 30 de agosto de 2026

Causo da Corruíra que Recusou um Imóvel - 20/08/2026


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Deoclécio, o “coach” do Alegrete - 30 de agosto de 2026

 

                                    Deoclécio, o “coach” do Alegrete

 

            Pois dizem que no século passado havia lá pela capital do Rio Grande, um retratista de corrida de auto que, pelo seu incontestável “talento e atualização de equipamentos”, era o preferido de 99,9 por cento dos pilotos de carreira de auto, até das baratas. Como as câmaras que usava não eram assim, digamos, as mais modernosas, como seus métodos de anotações e planilhas de quem já fora ou seria fotografado naquela corrida também eram do tempo da pedra lascada, um desinfeliz teve a ideia de apelidar o retratista de “Lambe-Lambe”. Como os “Nutella” não sabem, “Lambe-Lambes” eram aqueles fotógrafos de praças, que ficavam tirando retrato ao ar livre. Quando lhes faltava água, na pressa, em algumas etapas de revelação dos retratos, usavam a saliva  (cuspe para os sem frescura) e lambiam as fotos para a distribuição do líquido ficar homogênea.

            As fotos não ficavam o suprassumo da tecnologia de então, mas que duravam até um ano, ah, isso duravam ...

            O tal “Lambe-Lambe”  fazia umas fotos não muito ruins, tendo efetuado a documentação de todas as corridas de velocidade da década de 80 e início de 90. Como o sujeito tinha um certo preparo intelectual e sabia acolherar as letras e ajojar as palavras em frases, lá pelas tantas foi convidado para escrever a penúltima página dum jornal especializado, o “Esportemotor”.

            Era tal página mais voltada à abordagem das pencas motorizadas sob um ângulo mais humorístico e irônico do que, propriamente, sério. E não é que agradava?!

            Lá pelas tantas o fotógrafo-escrevinhador, na falta de assunto, (e qual escritor já não enfrentou a situação?) inventou de criar em sua imaginação um sujeito bem gaudério, duma cidade bem raiz, para fazer parte do mundo automobilístico.

            Nasceu o Deoclécio, lá por 1986, um peão de estância que se apaixonou pelas corridas de baratinhas, quando o Nelson Piquet estava por cima da carne seca.

            Tanto o peão gostava de corridas que encasquetou que também seria piloto. A primeira coisa que fez, então, foi confabular com seu Ponciano, estancieiro louco de buenacho e pedir para dar umas tratoreadas, na hora de fazer alguma pastagem, transportar moirões e rolos de arame para um fundo de campo.

            - Só pra i me ambientando com as cosa!

            - Mas Deoclécio, tu é o melhor capataz que já tive e agora me vem querendo crescer que nem rabo-de-cavalo, pra baxo? Ora, virar tratorista agora, para adespoi ser piloto de Fórmula 1 ... Cada ideia ...

            - Mas patrão, não tô de brinquedo. Degavar nas preda eu chego lá!

            Como era homem da “velha templa” e já escasseavam os ditos pelo pampa a fora, seu Ponciano deu um jeito e autorizou o tratorista a começar alguns treininhos básicos com o capataz.

            Num tapa se mostrou taura nas tratoreadas e assim foi misturando trabalho de rodeios, marcações, banho de carrapaticida, cura de bicheiras, coisa e tal, com andanças de trator.

            E tinha mais, nem que a vaca tossisse que ele saía pro campo em manhã de domingo, na hora da Fórmula 1.

            - Les garanto, um dia eu chego lá.

                                                           ...

            Não chegou a tanto, mas não falhava a nenhuma “Doze Horas de Tarumã” e, por incrível que pareça, chegou até a participar duma delas, como piloto dum Chevette.

            Como ficou muito amigo do fotógrafo, por ser o retratista também piloto de avião, começou a se interessar pelos “aparelhos”. Andou até iniciando um Curso de PP, que  não chegou a terminar, mas aprontou algumas, inclusive um voo solo de Ipanema, o mais popular avião agrícola do Brasil.

            Mas o tempo passa, as pessoas que levam uma vida rústica, desgastam-se muito antes do que os povoeiros. O Deoclécio teve que abandonar as lidas de campo e, com as economias que fizera como capataz, comprou uma casinha na entrada do Alegrete, quem vem das bandas de Maçambará/Itaqui pela Estrada do Meio.

            O índio era grosso, mas nunca foi burro. Inscreveu no EJA (Educação de Jovens e Adultos) e, ao contrário do que muitos pensavam, foi pra já que conseguiu aprovação no II grau.

            Sua letra era feia como briga de foice no escuro, seu raciocínio escolar um tanto lento, mas sempre um pouco acima do esperado e, quando todos se deram conta o quera estava prestando vestibular.

            E não é que passou?

            Começou um curso de administração de empresas, mas não se emparelhou com as matérias e os professores. Como sempre foi um sujeito observador e gostava de analisar o jeito da peonada e, ainda, por estar de namoriscos com uma prenda vinte e cinco anos mais nova, estudante de psicologia, por influência dela e, segundo o “Lambe-Lambe, por medo de perder a prenda para algum frangote colafina, resolveu encarar a tal faculdade.

            Com sua prática de vida, com o tempo que tinha para analisar os parceiros de trabalho, começou a combinar o aprendizado campeiro com a teoria acadêmica.

            Para encurtar, o sujeito terminou o curso, mas não entrou para a área da psicologia propriamente dita, pois achou que havia um bom nicho de mercado neste negócio de “coach”.

            Por mera curiosidade ou não, o fato é que, num vapt-vupt, o seu escritório/consultório estava sempre atopetado de gente.

            Um de seus primeiros contratantes foi um fazendeiro/granjeiro que se endividou até a raiz das unhas, com cinco anos de seca nas lavouras e pastagens.

            - Doutor, tô numa pua braba. Se vendê metade das terra, ainda fico devendo a outra metade. Mas não sou de entregá a rapadura. Vou calçá o pé e achá um jeito de saí desse brete.

            - Por premero: não sou doutor. Fiz esse tal curso, mas continuo sendo um peão de estância e capataz que sempre deu atenção ao jeito com que cada um enfrenta as peleia. O Curso só me deu a certeza de      que quagi tudo que eu sabia tinha respaldo intelectual-científico.

            - Esse tal de “coche” de que tanto falam, nada mais é do que um sujeito de tutano que não se afroxa assim no más. E tenta passar pros otro o mesmo jeito de continuar peleando.

            - Mas hombre, eu já não consigo dormi,  pensando no monte de conta que tenho pra pagá. Além do financiamento, tem uns adubo e defensivo que comprei direto com um amigo. Amigaço desde piá. Como é que eu vô deixa o homi pendurado no pincel?

            - Mas tchê, quem é que tem dinheiro a receber, ele ou tu?

            - Ele, claro, que espera que le pague o quanto antes. E como é que vô estraga uma amizade dessas?

            - Tem falado com ele?

            - Seguidito no más. Uma ou duas veiz por semana, pra toma uma cerveja. Mas eu fico até com vergonha de me deverti com um sujeito que espera um monte de dinhero que devo.

            - E ele se queixa de que não dorme dereito?

            - Nunca.

            - Então, bagual, larga de sê burro. Se ele que tem que recebê os troco dorme loco de bem, por que tu é que perde o sono?

            - Como diz aquele gordo, o Sérgio Cortella, tu não tá fazendo o teu melhor?

            - Mas claro que tô.

            - Taí, seu bocó, larga de sê imbecil, toma um gol de canha antes de dormi, pensa numa das guria lá da casa da luz roxa, esquece as conta. Foi tu que fechô as tornera do Céu e causou a seca? Não, não é? Te atraca a trabalhá, planta o que dé, paga o que pudé  e não me aparece aqui com essas chorumingança.

            Dizem que o “coatchê” seguiu os conselhos, deu chuva na safra seguinte, ele foi pagando aos poucos e, três anos, depois estava zerado, feliz da vida e, se alguém ousasse falar mal dum “coach” perto dele, era certo de sair, no mínimo, com o lombo riscado.

            E a fama do Deoclécio foi crescendo, crescendo.

            Acompanhe a evolução do peão, piloto de corrida e de avião que está ficando milionário com a dívida do agro gaúcho ...

 

           Qualquer dia desses o Lambe-Lambe-Retratista publica novo “capítalo” desta epopeia gauchesca que, dizem,  até já tem  cinco redes de TV interessadas em comprar o roteiro para produzir séries, novelas, filmes, essas “cosa”.

 

           

           

 

 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

domingo, 16 de agosto de 2026

A Primeira Pane Real

     Lá pelo Ano da Graça de 1996, havia um certo fotógrafo, alcunhado Lambe-Lambe, em homenagem a seus colegas antecessores, que fotografavam nas praças de pequenas e grandes cidades. Quando por algum motivo lhes faltava água, não hesitavam em usar a saliva - cuspe, para quem não tem frescurite - nalgumas etapas da revelação. E distribuíam o líquido lambendo as fotos, que também não hesitavam em desbotar meio logo ...

    Pois o Lambe-Lambe Retratista, como complementou o apelido o Jader Dutra, Decano dos Pilotos do Rio Grande do Sul, que aos oitenta e oito anos voa seus aviões, inclusive um RV-9(?), solito e faceiro como mosca em tampa de xarope, andava retratando cidades, empresas, praias, fazendas, granjas, etc. e que lá mais sei eu, lá por Santa Catarina - naquele tempo ainda Bela. Dito aprendiz de fotógrafo (ainda continua e não aprende ...) chegou lá por Tubarão à cata de avião para alugar, visando seus voos fotografantes. Sucedeu que, por algum motivo, não havia objeto voador e piloto disponíveis simultaneamente. Até que um piloto ou, acho que também picareta de aviões, veio com a sugestão de compra de um ultraleve. 

    - É barato, não tem tanta encheção de linguiça com o DAC (agora ANAC), pousa em pista curta. Serve como uma luva para o teu caso.

    Como não poderia fotografar ali por falta de avião e na falta do que fazer, dei corda ao assunto:

    - E onde encontro um ultraleve por aqui? - falei por falar.

    - Ué, compra o do Sombra. É um Netuno, motor de fusca, fácil e barata manutenção. Em qualquer beira de estrada tu chega num bolicho e arruma quem tenha uma vela, um platinado e outras peças mais comuns. 

    Como o Renato Vargas, meu colega de PP no Aeroclube de São Leopoldo tinha um e estava satisfeito, resolvi levar o assunto adiante.

    - E onde eu falo com esse tal de Sombra?

    Só então o sujeito deu-se conta de que estava meio brigado com o Sombra e que não poderia entrar de atravessador no negócio. De repente, ao ser interrogado sobre o endereço do Sombra, desconversou, disse que não sabia, essas coisas ... Apenas deu um indicativo do bairro onde estaria o Netuno. É lá no Oficinas, bairro onde ficavam as oficinas da antiga ferrovia. 

    Perdi um tempão procurando o Sombra, mas ele estava oculto nas sombras ... Até que alguém falou: 

    - Acho que tu tá procurando o Reginaldo, que é piloto executivo e mora lá pertinho do Aeroclube, umas duas quadras, se tanto. 

    Fui lá, mas o Sombra andava em voos  pelo Paraná.

    Resumindo um pouco. Depois de muitas idas e vindas, tempos e contratempos, chove-e-não-molha, chegamos a um acordo e o tal Netuno passou a ser meu e da patroa do momento, pois ela concordou em abrir mão temporariamente de sua Variant azul-pavão, ficando com o lado direito da aeronave e eu com o lado esquerdo. Caso não conseguisse pagar-lhe a Variant foi-me dada a opção amorosa de continuar voando apenas com o meu lado ...

    O Sombra, que estava "de a pé" quanto a carro-próprio, ficou contente por ter um "moderno" automóvel em sua garagem. 

      Eu, um eterno locatário de tecos para meus retratos, também fiquei bobo que nem guri de bombacha nova.

    - Sombra, vais ter que me dar uns duplos.

    - Sem problema.

    E nos fomos. Eu na esquerda, ele na direita, de instrutor.

    Um dos voo duplo mais rápidos que fiz em  minha vida. Acho que três turnos de pista e, sem mais aquela, o comandante começou a falar que era suficiente, que eu era um PP experiente, que sabia o que fazer com um avião como o Netuno.

    Ele encurtou o Curso Intensivo por dois motivos: a) o motor, sempre que era um pouco mais exigido, aquecia muito - só funcionando quase bem com apenas um passageiro; b) ele, que gostava duma birita estava necessitado de dar uma "calibrada no braço".

    Prometeu que ia em casa, almoçava e, questão de uma hora depois estaria de volta.

    Quando informei o pessoal que acorrera ao Aeroclube para ver o que estava acontecendo, pois o Netuno estava parado há mais de ano, que estava aguardando o Sombra para dali a pouco, riram de se dobrar.

    - Se amanhã é "daqui a pouco, tudo bem".

    De fato, o homem sumiu. 

    Agora imaginem se um fominha como eu, diante de seu primeiro avião próprio (ultraleve, mas avião) iria se aguentar sem voar até o dia seguinte.

    Foi pra já que comecei a fazer meus turninhos de pista. O Sombra, que já calibrara o braço, almoçara, dormira a mais não poder, quando se acordou da sesta, ouviu um ronco de motor passando sobre sua casa.

    Pensou: "Esse Barbosa, pode não ser bom piloto, mas que tem colhão, ah, isso tem. Acho melhor ir lá antes que ele apronte alguma". 

    Chegou e quando voltei para uma descansadinha, lá estava a figura.

    - Eu te disse que era fácil de pegar o jeito e "vestir" o avião.

    - Nem vou entrar mais. Continua solo - acrescentou.

    Mais uns turnos de pista, tudo nos conformes, tive que parar, pois estava ficando tarde e o galpão de uma empresa vizinha seria nosso hangar improvisado. Ocorre que não tinha largura de porta adequada e para botar o avião  lá dentro (12 m de envergadura) foi um "Deus nos acuda". 

    Já anoitecia quando o "meu avião" estava guardado.

    O Paulo, meu irmão, mais o piloto-operador nos mandamos pro hotelzinho.

    Quase não dormi aquela noite, esperando que clareasse, a fim de fazer uns voos com a atmosfera lisa e tranquila.

    Suamos para tirar o Netuno do galpão-hangar e pra já lá estava o "Lambe-Lambe" fazendo mais uns voos, para pegar bem o jeito e ficar confiante para o traslado de Tubarão a Porto Alegre.

    Para prestigiar o meu ajudante Paulo, o convidei para um turno de pista, pois era cedo e a temperatura do ar era tolerável. 

    Decolamos, fizemos um turno de pista, eu com o olho na temperatura de cabeça de pistão, quase entrando no vermelho na subida, pois o Paulo estava pesando 95 quilos na época e o motor estranhou a sobrecarga. 

    O pouso foi quase normal, mas o teco deu uma flutuadinha, fiz o certo, dei um toquezinho no motor, mas no novo toque também não ficou colado ao solo.

    O "saco" se assustou e falou alto:

    - Arremete.

    Eu, mero PP, sempre ouvindo os instrutores, no automático achei que a ordem vieram dum deles e arremeti.

    O motor que mal saíra do vermelho, com a descida, mas que tava no limite, entrou no crítico e o manicaca aqui, começou a reduzir, tentando baixar a temperatura do motor.

    Reduzindo, baixando, reduzindo, baixando, até que o passageiro falou:

    - Quase batemos no abacateiro!!!

    Empurrei a manete, o Volkswagen de um gemido-suspiro, mas aumentar o giro, nem pensar.

    Tentei curvar rumo a uma lavora de arroz, à esquerda.

    Quando olhei a velocidade, me apavorei, estávamos a 29 milhas, velocidade do estol.

    Gritei:

    - Essa merda vai  ...

    - Cair - que saiu somente quando já estávamos devidamente enterrados num bananal.

    Eu estava ileso. 

    Olho para a direita e não vejo no banco o carona: que estava no escuro do bananal, amontoado embaixo do painel de instrumentos:

    - Tu tá bem? perguntei.

    - Acho que sim. 

    E foi se erguendo vagarosamente, sem grandes gemidos ou reclamações de dor. Não é que estava ileso também?

    O desinfeliz, sei lá por qual motivo não colocara o cinto. 

    Claro que também foi culpa minha, que não chequei o cinto dele, mas o início de minha carreira de operador-piloto não foi assim, uma Brastemp ...

   Bem à esquerda, Sombra; camisa branca - amigo do Sombra, mecânico; magrinho sem camisa - saudoso Krupp; que estava indo a Curitiba buscar seu Kitfox, que depois foi meu; regata cor não - Renato Vargas; a seguir, sem camisa também saudoso Laurindo; último à direita - mano Paulo.



   E o Netuno veio para Porto Alegre/Canoas, voando por terra ...

    


    

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

10 de agosto de 2026 - /tempo - Grêmio e Inter

 Muito tempo depois,

Tanto Inter quanto Grêmio

Até merecem um prêmio,

Pois jogaram bem, os dois.

“É carreta atrás dos bois”!

Finalmente o esperado,

O futebol bem jogado.

Que prossigam nesta senda

Diversão e, ainda, renda

Pra Grêmio e pra Colorado!

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Tempo



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sábado, 8 de agosto de 2026

Reconheço que Sou um Manicaca - paródia da música do Imortal Gildo de Freitas

       Para felicidade de meus cinco seguidores, não me atrevo a cantar a paródia, apenas tento declamar ...

     As três pessoas que ouviram, emntiram pro Vovô e disseram que haviam gostado. 




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domingo, 5 de julho de 2026

05 de julho de 2026

 DEU A LÓGICA

 

         Na infância, adolescência e juventude sempre joguei futebol. Nunca fui um expoente no esporte, mas sempre dei o melhor de mim em disputas por mero divertimento.

         Era goleiro e dos bons. A prova é que quando estávamos na quarta série ginasial, acho que oitavo ou nono ano de agora, todos na faixa dos catorze aos dezesseis anos de idade, formamos um time de nossa turma, sem grandes pretensões.

         E fomos jogando, desafiando times de atletas experientes e, em teoria, muito melhores do que nós. A progressão foi tal que chegou a vez de desafiarmos o muitas vezes campeão da cidade de Santiago, o Municipal. Como eles sabiam que éramos um piazedo que nunca perdera uma partida, sempre arrumavam uma desculpa e nunca aceitaram jogar contra nós. Resumindo, chegou o final do ano e muitos dos colegas, inclusive eu, saímos da cidade e o time terminou sem nunca haver amargado uma derrota.

         Mas voltando à derrota de hoje, ver um sujeito que ganha milhões para brincar com a bola, errar um pênalti logo no início do jogo, é dose.

         Jogar futebol é, sem dúvida, um brinquedo e sempre tivemos exemplos de jogadores que jogavam com o mesmo prazer da criançada disputando uma pelada de pés descalços, em rua de paralelepípedo,

         O sujeito de hoje comunicou ao goleiro da Noruega onde iria bater, não por algum meio tecnológico moderno. Para piorar a coisa, usou sinal de fumaça, comunicação lenta, dando todo tempo do mundo para o goleiro escolher  o canto para onde voar. Deu no que deu.

         Acho, inclusive, que esse time aí foi longe demais. Não só por culpa dos jogadores: o futebol virou uma enorme máquina de fazer fortuna de privilegiados que deitam e rolam. FIFA, CBF, CONCACAF (é assim que se escreve?  - ou é com Bic?) são entidades arrecadadoras de fortunas e não há como negar que muita gente vive do futebol, sem jamais ter dado um chute ... Inclua-se aí boa parte da mídia.

         É vergonhoso ver um atleta que ganha num mês o que a esmagadora maioria dos brasileiros não ganha numa vida inteira, não ter a competência de fazer um gol de pênalti.

         E a prova de que o amor à camiseta pode compensar a falta das fortunas que correm por trás da indústria do futebol foi a Seleção de Cabo Verde. Em sua primeira participação em Copas, com atletas saídos de uma população de pouco mais de quinhentos mil habitantes foi muito longe, cobrando preço alto de países com enorme tradição futebolística.

         Seria como Caxias do Sul formar uma seleção capaz de chegar à fase do tudo ou nada.

         Os atletas que hoje pareciam estar ligando muito pouco para ganhar ou perder, teriam a consciência de devolver o enorme volume de dinheiro recebido para fazer este fiasco? A vergonhosa Seleção dos sete a um tomados da Alemanha, dizia que estava envergonhada, mas, ao que eu saiba nenhum daqueles mercenários devolveu um centavo. Sequer pensaram em doar o imerecido recebimento a instituições carentes.

         Em minha modesta opinião, jogador para ir à Copa devia ir apenas pelo amor à camiseta, por patriotismo, para defender as cores de seu país, sem interesses financeiros. Com certeza as disputas seriam muito mais heroicas e emocionantes.

         Desde o início tinha o pressentimento de que esse time que jogou hoje já tinha ido longe demais.  

         Todos sabiam que a Noruega não seria fácil. Esse italiano que é nosso técnico não sabia disso? Será que não exigiu treinos e mais treinos de cobrança de pênalti? Ou agiu como o técnico alemão desta Copa, cujo time errou três das cinco cobranças?

         Salientando que no mata-mata pênalti é situação mais do que previsível.

         Tenho para mim que o futebol virou uma máquina de fazer dinheiro e que há muito o que interessa não é o espírito esportivo, mas o financeiro.

         Bons tempos em que os campeões mundiais ganhavam um milésimo do que ganham os atuais atletas, mas jogavam com o principal objetivo de se divertir e honrar as cores de sua pátria, não de engordar as contas bancárias.

         Quando este espírito ressurgir, me avisem. Aí acho que volto a gastar meu tempo em frente à televisão, para ver atletas vestindo a camiseta de seu país como manifestação patriótica, lúdica e abnegada.

         Digo e não me arrependo, tanto que escrevi e não renego a escrevinhação.

        

domingo, 28 de junho de 2026

Os Donos da Verdade - 28 de junho de 2026

  




 

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                                Os Donos da Verdade

 

         Há uma certa corrente política, talvez até duas, que se intitula e se nomeia dona absoluta da verdade.

         Dias atrás,  sujeito pertencente a uma delas achou-se no direito de classificar os que não comungam com suas ideias como “falso isentão”. Isto é, para o filósofo e cientista político de porta de açougue, quem se diz moderado, quem  combate os erros e admite os acertos tanto da direita como da esquerda, na realidade, se afirma não ser “lulista” é porque, na mente de dito sujeito cujo nome não cito para não dar destaque imerecido, o referido “não lulista” é “bolsonarista”.

         Não sou “lulista” e os que me conhecem há muito tempo sabem que também não sou bolsonarista. Sou centro-esquerda, mas não posso esquecer que, por estranha coincidência, os dois piores escândalos de corrupção que tivemos no Brasil ocorreram quando os lulistas (esquerda, portanto) estavam no poder. E abro um parêntese para dizer que conheci pessoalmente apenas um pertencente à corrente do “Nove Dedos” que, quando ocorreu o “Mensalão”, desfiliou-se imediatamente do PT, por não aceitar aquela barbaridade.

         Sou Brizolista, com orgulho, mas, se me provarem que Leonel de Moura Brizola também era corrupto, no mesmo momento deixarei de cultuar a memória do governante que mais fez pela educação no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro. Ou me arrumem um outro governador que, nas mesmas condições de escassez de recursos, no final da década de 1950, início dos anos 60 plantou nos mais afastados rincões do chão gaúcho seis mil e trezentas escolas, as famosos “Brizoletas”.

         Por onde ele andou, sempre defendeu com unhas e dentes nossas crianças e o investimento primordial em Educação.

         Pois bem, cidadão dono da verdade e lulista: não me recordo de haver passado a ti uma procuração para que me nomeasse, duma hora para outra, como bolsonarista.

         Como diria o Jânio Quadros: não sou-lho! (Como Jânio era perfeccionista da língua portuguesa, o certo seria não o sou, mas aí teríamos um cacófato ...)

         Como vou ser bolsonarista, quando o homem, enquanto dirigia o país, ficava fazendo piadinhas com o sofrimento das vítimas da Covid e a dor dos que, como eu e como boa parte dos brasileiros, perderam amigos e familiares naquela pandemia?

         Quem não sabe que o homem é destrambelhado na hora de abrir a boca.

         Mas, em contrapartida,  me digam quem foi que, na realidade, implantou o PIX no Brasil, em 2020? Alguns dirão que a ideia surgiu no Governo da Presidenta Dilma, ou seria Presidente Dilme? Pode ser que seja isto seja verdade, mas por que ela não implantou esta forma de pagamento? Seria medo de enfrentar o sistema bancário?

         É um dos casos em que se deve dar o braço a torcer. O presidente que seguidamente falava de forma quase inadmissível a uma autoridade tão elevada, também fez coisas boas. Pena que desmanchava com a língua o que fazia com o cérebro ...

         Este radicalismo exacerbado que tomou conta do país, em que algumas “mentes privilegiadas” se acham no direito de jogar toda a população em apenas duas panelas, a dos lulistas e a dos bolsonaristas, não leva a lugar algum. E mesmo que leve, por que não pode haver um outro caminho, um outro modo de ver e administrar este país-continente?

         Não sou bolsonarista, não sou lulista e me reservo o direito de ser assim até quando eu quiser, por minhas convicções, coerência e formação moral e política.

         Sem a interferência e qualificação de algum filósofo, intelectual, ou cientista político de meia tigela, formado em algum curso feito pela telepatia da internet.

         E mais não digo porque não quero e me reservo o direito de não querer ...

         28 de junho de 2026.

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