Pane de Profundor –
Apavorante Experiência
Há
muitos anos atrás o saudoso Fernando Velho Costa enfrentou uma e conseguiu
levar o ultraleve (avião muito mais sensível a ventos, térmicas, etc.) para um
pouso em que o tequinho ficou quase destruído, mas o guri de uns nove anos que
o acompanhava saiu ileso. O comandante o instruíra para encolher-se todo o que
distribuiu a energia do choque. O Costa, pela posição de pilotagem, com as
pernas e pés estendidos, ao bater no solo, recebeu a maior parte do impacto na
coluna lombar, fraturando uma vértebra, com sorte não atingindo a medula.
Recuperou-se e em pouco tempo estava voando de novo.
Para
variar, não faltaram os pilotos de mesa de bar dizendo que deveria ter feito
isso, outros, que poderia ter feito
aquilo e assim por diante.
Até
havia alguns que estavam certos. Falavam que, por ser o ML um ultraleve com
motor em cima e atrás da asa, ao cortar-se a aceleração, se esta for brusca,
faz o nariz subir violentamente, o que ocorrera, e o tequinho subiu e estolou a
uns quatro ou cinco metros de altura, talvez.
Só
que os pilotos de mesa não se deram conta de que o Costa viera com o avião de
uma boa distância, mantendo-o nivelado sem grandes problemas, apenas com o
compensador e acelerador. Somando-se a isto as características da única
cabeceira adequada para pouso: uma aproximação que exigia o sobrevoo de linha de alta tensão sobre uma coxilha, para
depois mergulhar rumo à pista numa depressão do terreno, uns vinte, trinta
metros – considerando desnível do solo e a linha de alta tensão (daquelas de
torres metálicas, de tão altas).
Pilotar
em cima de mesa de bar é coisa que até eu sei fazer ...
Pois
bem, há poucas semanas houve aquela pane de profundor em que o piloto conseguiu
levar o avião agrícola até o aeroporto de Alegrete.
Este
manicaca escrevinhador, quando viu as imagens, não por se achar grande piloto,
mas pela experiência (inclusive com uma pane destas) achou que teria havido uma
falha na hora do pouso, mas nada falei ou escrevi, em respeito ao comandante,
que já fizera muito em trazer avião a pouso, com danos materiais e físicos,
estes sem riscos de morte.
Depois
de haver passado a pior parte da recuperação, ao dar entrevista, ele mesmo,
segundo consta, admitiu ter falhado na hora do pouso.
E
o Lambe-Lambe não toca no assunto para desvalorizar o comandante, mas contribuir para a preservação de vidas.
Já
publiquei a minha experiência com esta maldita pane. Só não cheguei em casa
todo cagado, porque antes dos voos sempre como pouco ...
Mas,
voltando à experiência do Fernando Velho Costa, logo que aconteceu, inventei de
praticar, com muito cuidado, tentativas de pouso sem usar o profundor. E meu
“aparelho” era um ultraleve Netuno, com motor de Fusca, um arrasto brutal,
estol a trinta milhas e VNE de sessenta ...
Como
fiz: primeiramente, lá pelos dois mil pés, tirava as mãos do manche, e tentava
manter o teco em voo nivelado, usando apenas a manete, pois o dito não tinha
compensador nem flaps.
No
início, até que precisei usar o manche, mas fui pegando o jeito. De vereda
estava conseguindo manter o pássaro voando nivelado.
Ah,
repisando o velho ditado e sem machismo: avião é masculino, mas também é
máquina – feminino, portanto. Assim, tem que ser tratado com muito carinho,
suavidade, respeito. Neste tipo de pane, então, nem se fala. Esqueça movimentos
bruscos de comando, acelerações – pegue leve sempre.
Fui
praticando, praticando. Quando me dei conta, levava o desajeitado Netuno até
quase o pouso, mas nunca arrisquei o toque. O mais perto da pista que cheguei
deve ter sido a um ou dois metros de altura. Aí pensei: numa pane real, nessa
altura, acho que pouso sem me quebrar todo e não pousar foi decisão acertada.
Um
outro piloto fizera o mesmo treino e inventou de fazer pouso completo:
resultado – pilonagem sem grandes danos além de hélice, abertura de motor,
essas coisas.
Pois
no causo deste manicaca escrevinhante, tive muita sorte que a pane ocorreu
próximo duma pista agrícola com setecentos metros, a qual eu já conhecia a do
Moacir Moro.
O
teco-teco era um ultraleve Kitfox, que originalmente vem sem compensador, mas
que possui flap de grande eficiência. Se você dá flap, automaticamente o nariz
desce e vice-versa. Se coordenar flap e motor, é quase como ter o faltante
compensador.
E
aqui confesso ter me dado conta apenas agora de que o flap poderia ter
auxiliado muito na aproximação para pouso, o que não aproveitei. Estava tão
apavorado, que me concentrei no pouso controlado apenas pela manete. Mas
gritava de mim para migo:
-
“Lambe-Lambe”, não tira motor de repente. Se tu fizer isso vai alegrar os
médicos ou o pessoal do pijama de madeira!!!
E
foi o que fiz.
Não
é que deu certo?!
Moral
da história: claro que é um treinamento de certo risco, isto de aproximar sem
usar o profundor. Mas está provado que estas panes acontecem.
Por que, então, não treinar os pilotos para
enfrentar essa aterrorizante possibilidade?
Pessoalmente
nunca recebi este tipo de treinamento. Fi-lo porque qui-lo – como dizia o Jânio
Quadros, por minha conta e risco.
E
não é que me salvou?
Mesmo que você não haja treinado, lembre-se: suavidade no motor, no
compensador. Se não houver obstáculos e o motor estiver saudável, venha
descendo com muita suavidade a grande distância da cabeceira. Chegue nela já
quase ao nível do solo. Vá desacelerando
muito suavemente e faça um pouso de pista, com toda a mansidão possível.
Lembre-se:
se tirou o motor ou picou demais o compensador, sem profundor, a baixa altura,
a inércia fará o avião dar um placaço daqueles ... É que a reação aerodinâmica
foi menor do que a ação inercial ...
Suavidade,
sempre suavidade.
IMPORTANTÍSSIMO:
Se algum piloto mais experiente e capacitado que eu e a grande maioria é, caso
tenha notado alguma dica errada ou perigosa, por favor entre em contato, pois
em se tratando de tal assunto, qualquer erro pode cobrar muito caro.






