domingo, 16 de agosto de 2026

A Primeira Pane Real

     Lá pelo Ano da Graça de 1996, havia um certo fotógrafo, alcunhado Lambe-Lambe, em homenagem a seus colegas antecessores, que fotografavam nas praças das pequenas e grandes cidades. Quando por algum motivo lhes faltava água, não hesitavam em usar a saliva - cuspe, para quem não tem frescurite - nalgumas etapas da revelação de suas fotos. E distribuíam o líquido lambendo as fotos, que também não hesitavam em desbotar meio logo ...

    Pois o Lambe-Lambe Retratista, como complementou o apelido o Jader Dutra, Decano dos Pilotos do Rio Grande do Sul, que aos oitenta e oito anos voa seus aviões, inclusive um RV-9(?), solito e faceiro como mosca em tampa de xarope, andava retratando cidades, empresas, praias, fazendas, granjas, etc. e que lá mais sei eu, lá por Santa Catarina - naquele tempo ainda Bela. Dito aprendiz de fotógrafo (ainda continua e não aprende ...) chegou lá por Tubarão à cata de avião para alugar visando seus voos fotografantes. Sucedeu que, por algum motivo, não havia objeto voador e piloto disponíveis simultaneamente. Até que um piloto ou, acho que também picareta de aviões, veio com a sugestão de compra de um ultraleve. 

    - É barato, não tem tanta encheção de linguiça com o DAC (agora ANAC), pousa em pista curta. Serve como uma luva para o teu caso.

    Como não poderia fotografar ali, por falta de avião e na falta do que fazer, dei corda ao assunto:

    - E onde encontro um ultraleve por aqui? - falei por falar.

    - Ué, compra o do Sombra. É um Netuno, motor de fusca, fácil e barata manutenção. Em qualquer beira de estrada tu chega num bolicho e arruma quem tenha uma vela, um platinado e outras peças mais comuns. 

    Como o Renato Vargas, meu colega de PP no Aeroclube de São Leopoldo tinha um e estava satisfeito, resolvi levar o assunto adiante.

    - E onde eu falo com esse tal de Sombra?

    Só então o sujeito deu-se conta de que estava meio brigado com o Sombra e que não poderia entrar de atravessador no negócio. De repente, a ser interrogado sobre o endereço do Sombra, desconversou, disse que não sabia, essas coisas ... Apenas deu um indicativo do bairro onde estaria o Netuno. É lá no Oficinas, bairro onde ficavam as oficinas da antiga ferrovia. 

    Perdi um tempão procurando o Sombra, mas ele estava oculto nas sombras ... Até que alguém falou: 

    - Acho que tu tá procurando o Reginaldo, que é piloto executivo e mora lá pertinho do Aeroclube, umas duas quadras, se tanto. 

    Fui lá, mas o Sombra andava em voos  pelo Paraná.

    Resumindo um pouco. Depois de muitas idas e vindas, tempos e contratempos, chove-e-não-molha, chegamos a um acordo e o tal Netuno passou a ser meu e da patroa do momento, pois ela concordou em abrir mão temporariamente de sua Variant azul-pavão, ficando com o lado direito da aeronave e eu com o lado esquerdo. Caso não conseguisse pagar-lhe a Variant foi-me dada a opção amorosa de continuar voando apenas com o meu lado ...

    O Sombra, que estava "de a pé" quanto a carro-próprio, ficou contente por ter um "moderno" automóvel em sua garagem. 

      Eu, um eterno locatário de tecos para meus retratos, também fiquei bobo que nem guri de bombacha nova.

    - Sombra, vais ter que me dar uns duplos.

    - Sem problema.

    E nos fomos. Eu na esquerda, ele na direita, de instrutor.

    Um dos cursos mais rápidos que fiz em  minha vida. Acho que três turnos de pista e, sem mais aquela, o comandante começou a falar que era suficiente, que eu era um PP experiente, que sabia o que fazer com um avião como o Netuno.

    Ele encurtou o Curso Intensivo por dois motivos: a) o motor, sempre que era um pouco mais exigido, aquecia muito - só funcionando quase bem com apenas um passageiro; b) ele, que gostava duma birita estava necessitado de dar uma "calibrada no braço".

    Prometeu que ia em casa, almoçava e, questão de uma hora depois estaria de volta.

    Quando informei o pessoal que acorrera ao Aeroclube para ver o que estava acontecendo, pois o Netuno estava parado há mais de ano, que estava aguardando o Sombra para dali a pouco, riram de se dobrar.

    - Se amanhã é "daqui a pouco, tudo bem".

    De fato, o homem sumiu. 

    Agora imaginem se um fominha como eu, diante de seu primeiro avião próprio (ultraleve, mas avião) iria se aguentar sem voar até o dia seguinte.

    Foi pra já que comecei a fazer meus turninhos de pista. O Sombra, que já calibrara o braço, almoçara, dormira a mais não poder, quando se acordou da sesta, ouviu um ronco de motor passando sobre sua casa.

    Pensou: "Esse Barbosa, pode não ser bom piloto, mas que tem colhão, ah, isso tem. Acho melhor ir lá antes que ele apronte alguma". 

    Chegou e quando voltei para uma descansadinha, lá estava a figura.

    - Eu te disse que era fácil de pegar o jeito e "vestir" o avião.

    - Nem vou entrar mais. Continua solo. 

    Mais uns turnos de pista, tudo nos conformes, tive que parar, pois estava ficando tarde e o galpão de uma empresa vizinha seria nosso hangar improvisado. Ocorre que não tinha largura de porta adequada e para botar o avião  lá dentro (12 m de envergadura) foi um "Deus nos acuda". 

    Já anoitecia quando o "meu avião" estava guardado.

    O Paulo, meu irmão, mais o piloto-operador nos mandamos pro hotelzinho.

    Quase não dormi aquela noite, esperando que clareasse, a fim de fazer uns voos com a atmosfera lisa e tranquila.

    Suamos para tirar o Netuno do galpão-hangar, e, pra já lá estava o "Lambe-Lambe" fazendo mais uns voos, para pegar bem o jeito a fim de ficar garantido para o traslado de Tubarão a Porto Alegre.

    Para prestigiar o meu ajudante Paulo, o convidei para um turno de pista, pois era cedo e a temperatura do ar era tolerável. 

    Decolamos, fizemos um turno de pista, eu com o olho na temperatura de cabeça de pistão, quase entrando no vermelho na subida, pois o Paulo estava pesando 95 quilos na época e o motor estranhou a sobrecarga. 

    O pouso foi quase normal, mas o teco deu uma flutuadinha, fiz o certo, dei um toquezinho no motor, mas no novo toque também não ficou colado ao solo.

    O "saco" se assustou e falou alto:

    - Arremete.

    Eu, mero PP, sempre ouvindo os instrutores, no automático achei que a ordem vieram dum deles e arremeti.

    O motor que mal saíra do vermelho, com a descida, mas que tava no limite, entrou no crítico e o manicaca aqui, começou a reduzir, tentando baixar a temperatura do motor.

    Reduzindo, baixando, reduzindo, baixando, até que o passageiro falou:

    - Quase batemos no abacateiro!!!

    Empurrei a manete, o Volkswagen de um gemido-suspiro, mas aumentar o giro, nem pensar.

    Tentei curvar rumo a uma lavora de arroz, à esquerda.

    Quando olhei a velocidade, me apavorei, estávamos a 29 milhas, velocidade do estol.

    Gritei:

    - Essa merda vai  ...

    - Cair - que saiu somente quando já estávamos devidamente enterrados num bananal.

    Eu estava ileso. 

    Olho para a direita e não vejo no banco o carona: que estava no escuro do bananal, amontoado embaixo do painel de instrumentos:

    - Tu tá bem? perguntei.

    - Acho que sim. 

    E foi se erguendo vagarosamente, sem grandes gemidos ou reclamações de dor. Não é que estava ileso também?

    O desinfeliz, sei lá por qual motivo não colocara o cinto. 

    Claro que também foi culpa minha, que não chequei, mas o início de minha carreira de operador-piloto não foi assim, uma Brastemp ...

   Bem à esquerda, Sombra; camisa branca - amigo do Sombra, mecânico; magrinho sem camisa - saudoso Krupp; que estava indo a Curitiba buscar seu Kitfox, que depois foi meu; regata cor não - Renato Vargas; a seguir, sem camisa também saudoso Laurindo; último à direita - mano Paulo.



   E o Netuno veio para Porto Alegre/Canoas, voando por terra ...

    


    

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