domingo, 6 de setembro de 2026

6 de Setembro de 2026 - Opinião e Dicas

 

                        Pane de Profundor – Apavorante Experiência

              Se  tens um inimigo daqueles intoleráveis, que não desejas ver nunca mais, nem para ele deseja esta aventura. Só quem já sobreviveu a uma delas sabe o quanto o sujeito borra as cuecas, tentando levar o avião a um pouso sem morte ou ferimentos graves.

            Há muitos anos atrás o saudoso Fernando Velho Costa enfrentou uma e conseguiu levar o ultraleve (avião muito mais sensível a ventos, térmicas, etc.) para um pouso em que o tequinho ficou quase destruído, mas o guri de uns nove anos que o acompanhava saiu ileso. O comandante o instruíra para encolher-se todo o que distribuiu a energia do choque. O Costa, pela posição de pilotagem, com as pernas e pés estendidos, ao bater no solo, recebeu a maior parte do impacto na coluna lombar, fraturando uma vértebra, com sorte não atingindo a medula. Recuperou-se e em pouco tempo estava voando de novo.

            Para variar, não faltaram os pilotos de mesa de bar dizendo que deveria ter feito isso, outros,  que poderia ter feito aquilo e assim por diante.

            Até havia alguns que estavam certos. Falavam que, por ser o ML um ultraleve com motor em cima e atrás da asa, ao cortar-se a aceleração, se esta for brusca, faz o nariz subir violentamente, o que ocorrera, e o tequinho subiu e estolou a uns quatro ou cinco metros de altura, talvez.

            Só que os pilotos de mesa não se deram conta de que o Costa viera com o avião de uma boa distância, mantendo-o nivelado sem grandes problemas, apenas com o compensador e acelerador. Somando-se a isto as características da única cabeceira adequada para pouso: uma aproximação que exigia o sobrevoo de  linha de alta tensão sobre uma coxilha, para depois mergulhar rumo à pista numa depressão do terreno, uns vinte, trinta metros – considerando desnível do solo e a linha de alta tensão (daquelas de torres metálicas, de tão altas).

            Pilotar em cima de mesa de bar é coisa que até eu sei fazer ...

            Pois bem, há poucas semanas houve aquela pane de profundor em que o piloto conseguiu levar o avião agrícola até o aeroporto de Alegrete.

            Este manicaca escrevinhador, quando viu as imagens, não por se achar grande piloto, mas pela experiência (inclusive com uma pane destas) achou que teria havido uma falha na hora do pouso, mas nada falei ou escrevi, em respeito ao comandante, que já fizera muito em trazer avião a pouso, com danos materiais e físicos, estes sem riscos de morte.

            Depois de haver passado a pior parte da recuperação, ao dar entrevista, ele mesmo, segundo consta, admitiu ter falhado na hora do pouso.

            E o Lambe-Lambe não toca no assunto para desvalorizar o comandante, mas  contribuir para a preservação de vidas.

            Já publiquei a minha experiência com esta maldita pane. Só não cheguei em casa todo cagado, porque antes dos voos sempre como pouco ...

            Mas, voltando à experiência do Fernando Velho Costa, logo que aconteceu, inventei de praticar, com muito cuidado, tentativas de pouso sem usar o profundor. E meu “aparelho” era um ultraleve Netuno, com motor de Fusca, um arrasto brutal, estol a trinta milhas e VNE de sessenta ...

            Como fiz: primeiramente, lá pelos dois mil pés, tirava as mãos do manche, e tentava manter o teco em voo nivelado, usando apenas a manete, pois o dito não tinha compensador nem flaps.

            No início, até que precisei usar o manche, mas fui pegando o jeito. De vereda estava conseguindo manter o pássaro voando nivelado.

            Ah, repisando o velho ditado e sem machismo: avião é masculino, mas também é máquina – feminino, portanto. Assim, tem que ser tratado com muito carinho, suavidade, respeito. Neste tipo de pane, então, nem se fala. Esqueça movimentos bruscos de comando, acelerações – pegue leve sempre.

            Fui praticando, praticando. Quando me dei conta, levava o desajeitado Netuno até quase o pouso, mas nunca arrisquei o toque. O mais perto da pista que cheguei deve ter sido a um ou dois metros de altura. Aí pensei: numa pane real, nessa altura, acho que pouso sem me quebrar todo e não pousar  foi decisão acertada.

            Um outro piloto fizera o mesmo treino e inventou de fazer pouso completo: resultado – pilonagem sem grandes danos além de hélice, abertura de motor, essas coisas.

            Pois no causo deste manicaca escrevinhante, tive muita sorte que a pane ocorreu próximo duma pista agrícola com setecentos metros, a qual eu já conhecia a do Moacir Moro.

            O teco-teco era um ultraleve Kitfox, que originalmente vem sem compensador, mas que possui flap de grande eficiência. Se você dá flap, automaticamente o nariz desce e vice-versa. Se coordenar flap e motor, é quase como ter o faltante compensador.

            E aqui confesso ter me dado conta apenas agora de que o flap poderia ter auxiliado muito na aproximação para pouso, o que não aproveitei. Estava tão apavorado, que me concentrei no pouso controlado apenas pela manete. Mas gritava de mim para migo:

            - “Lambe-Lambe”, não tira motor de repente. Se tu fizer isso vai alegrar os médicos ou o pessoal do pijama de madeira!!!

            E foi o que fiz.

            Não é que deu certo?!

            Moral da história: claro que é um treinamento de certo risco, isto de aproximar sem usar o profundor. Mas está provado que estas panes acontecem.

Por que, então, não treinar os pilotos para enfrentar essa aterrorizante possibilidade?

            Pessoalmente nunca recebi este tipo de treinamento. Fi-lo porque qui-lo – como dizia o Jânio Quadros, por minha conta e risco.

            E não é que me salvou?

           Mesmo que você não haja treinado, lembre-se: suavidade no motor, no compensador. Se não houver obstáculos e o motor estiver saudável, venha descendo com muita suavidade a grande distância da cabeceira. Chegue nela já quase ao nível do solo.  Vá desacelerando muito suavemente e faça um pouso de pista, com toda a mansidão possível.

            Lembre-se: se tirou o motor ou picou demais o compensador, sem profundor, a baixa altura, a inércia fará o avião dar um placaço daqueles ... É que a reação aerodinâmica foi menor do que a ação inercial ...

 

            Suavidade, sempre suavidade.

 

            IMPORTANTÍSSIMO: Se algum piloto mais experiente e capacitado que eu e a grande maioria é, caso tenha notado alguma dica errada ou perigosa, por favor entre em contato, pois em se tratando de tal assunto, qualquer erro pode cobrar muito caro.

           

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