domingo, 29 de março de 2026

O Avião que Ficou - 29 de março de 2026

 O AVIÃO QUE FICOU

 

            Num distante dia de outono ou inverno do ano da Graça de mil novecentos e sessenta e dois um grupo de crianças, na falta de coisa melhor a fazer, comia bergamotas nos fundos da Fazendola Bom Retiro. A tal propriedade localizava-se no município de São Vicente, que naquela tarde era chamado de General Vargas e que anos depois voltou a ser São Vicente, só que do Sul. Essa trocança de nomes, aconteceu, claro, por motivos políticos, politiqueiros ou coisa que o valha. 

         Eis que de repente começa uma ronqueira de motores possantes fazendo eco na serrania para as bandas da Vila Mata.

         Aquele piazedo até estava acostumado com ronco de motores de avião, pois dita ex-fazenda, agora pouco  mais do que uma chácara por causa da divisão entre os herdeiros, estava localizada bem na rota dos aviões de linha comercial regular que vinha da capital Porto Alegre, para, pousa aqui e ali, chegar até Uruguaiana e São Borja. Mas os "aparelhos" passavam alto, isso amortecendo em muito o som das aves metálicas. Por isso muitas vezes a gurizada não conseguia visualizar a condução aérea dos felizardos ricaços que faziam suas viagens em tão maravilhosas máquinas.

         Naquele tempo voar de avião para nós não passava de um sonho distante, irrealizável. Aquilo só estava ao alcance de fazendeiros, doutores, advogados, engenheiros, comerciantes fortes, políticos de destaque e seus assessores nem tão destacados,  mas mui astutos ...

         Só que nesse  dia nublado, estranhamente, o ronco era muito mais forte e, sem mais nem menos, nos surge aquele monstro alado quase tocando no topo das coxilhas, vindo em nossa direção.

         Uns piás gritaram:

         - Vamos correr que vai cair e pode ser em cima de nós.

         Alguém da turma foi mais sensato:

         - É melhor a gente ficar olhando e só correr quando se tiver certeza  do lugar onde vai bater no chão.

         Ficamos ali, paralisados de terror e maravilhados pelo privilégio de ver um avião de perto, duas enormes emoções.

         Acabamos um pouco decepcionados quando tivemos a certeza de que, se caísse, não iria ser tão perto de nós, pelo novo rumo tomado.

         E lá se foram, avião, piloto, copiloto, aeromoça, passageiros endinheirados, políticos espertos e os infalíveis "piolhos-de-rico", raça que, como a das baratas, sempre existiu e nunca deixará de existir, no rumo do campo de aviação de Santiago.

         Claro que  nenhuma criança queria um morticínio, mas, confesso, todos nós ficamos chateados por que não seria daquela vez que iríamos conhecer um avião de perto.

         Não duvido que alguns ou todos, inclusive o escrevinhador, houvessem torcido pelo pouso forçado num campo ali perto. Afinal, já não houvera casos de avião cair em campos e lavouras sem que ninguém houvesse morrido?

         "O que custava fazer um pouso de emergência ali na Palma e encher de alegria e felicidade o coração daquela gurizada? Não acontecera uns  anos antes o pouso dum avião pequeno, ali na estrada da Vila Mata, com os dois homens que estavam nele saindo sem nenhum arranhão?"

         E aquela foi a sensação do dia, da semana, talvez do mês.

         E mais: não duvido de que aquela passagem rasante sob a camada baixa que lambia os cerros da Mata e  Taquarixim,  seja a culpada de este retratista/escrevinhador haver feito enormes sacrifícios para cursar o PP, pelear outro tanto para comprar seu primeiro ultraleve e continuar voando até os presentes setenta e dois invernos.

         O DC-3 da saudosa Varig felizmente não caiu, deve ter chegado ao seu destino ou, na pior das hipóteses, alternado para algum pouso seguro. Mas nem a Varig, nem o piloto, nem a aeromoça tiveram ideia do quanto marcaram os corações daquelas humildes crianças, filhos de meros agricultores agregados ou  simples vendedores de livros, sendo que um dos piás era órfão de pai, todos jamais acreditando em realizar o sonho de um dia sair do chão.

         Certas coisas vêm no gene e não duvido que lá numa das ínfimas moléculas de DNA tenha vindo a ordem: este aí tem que voar um dia.

         Mas também não duvido que aquele DC-3 passando baixo pela Palma, lambendo coxilhas, seja o culpado por haver um pobre fotógrafo empenhado até a alma para conquistar seu brevê e continuar suando sangue para ter suas próprias maquininhas voadoras, simples, elementares, mas voantes.

         Claro que muitos invejam aqueles que têm o privilégio de voar. Claro também que  a maioria dos humanos sonha em ter asas, mas raros são os capazes de qualquer sacrifício para realizar o sonho de dar uma rasteira na lei da gravidade.

         Como diz aquele ditado: só quem voa sabe porque os passarinhos cantam.

         Este desejo ancestral está em todos nós e felizes os que conseguem realizá-lo.

         Meus profundos e sinceros agradecimentos a S. Pedro, que forçou aquele comandante, nos tempos heroicos da aviação, a voar ciscando; que adivinhou onde estava aquele piazedo de campanha para, qual um piloto agrícola, fazer um tiro perfeito lançando, não azevém, mas a semente da aviação.

         Pelo menos uma  germinou.

        Palma, junho 2021.

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