sábado, 7 de março de 2026

O Tempo Passa - 07 de março de 2026

 

                                    O Tempo Passa

 

            Quando a gente é jovem, a impressão que nos domina é a de que somos eternos, inatingíveis, insuperáveis e os escolhidos pelos deuses do Olimpo para realizar todos  nossos sonhos.

          Aos poucos a vida vai nos ensinando que não é bem assim. Raros sonhos conseguimos realizar e as conquistas planejadas, parece que conseguem sempre conseguir uma certa dianteira sobre nossa caminhada.

            Felizmente o ser humano, na maior parte dos casos, insiste na crença de que uma hora vai dar certo.

            E, às vezes, dá.

            É o caso dos pilotos. Se não, vejamos:

            Todos sonhamos em ter a vida dos pássaros, mas eles são mais felizes porque já nascem com asas. Nós, a única asa que temos é a do desodorante vencido ...

            Há os privilegiados que nascem em berço de ouro, onde os pais podem abrir caminho com seu apoio financeiro. Os “Lambe-Lambe-Retratistas”, coitados, têm que fotografar muito casório, batizado, formatura, passar noites sem dormir cobrindo estes e outros eventos para, ao final de duas semanas, conseguir uns troquinhos extras e voar uma horinha para acrescentar à Caderneta Individual de Voo. Quando consegue voar de novo, já perdeu a embocadura do treinamento anterior e assim o brevê parece que, em vez de se aproximar, abre mais distância do infeliz candidato a Ícaro.

            Mas, uma coisa é verdade: quem foi atacado pelo vírus da aviação, tem na própria doença o remédio que lhe dá forças para insistir. E a perseverança, depois de longo tempo acaba sendo premiada. Um belo dia o instrutor, ao final da missão informa: te prepara, no próximo voo vamos checar.

            São dias e noites de enorme expectativa: a boa – saber que o sonho de ser piloto está ao alcance do braço, melhor dizendo, do pé e mão; a ruim – e se eu ficar nervoso, se errar alguma manobra, me apavorar e pedir para retornar, checando noutro dia?

            Mas o homenzinho não se entrega e encara o desafio de peito aberto, mãos tremendo e sovaco derrotando zorrilhos de tão fedido. Até hoje acho que meu checador, o Pizzato, brevetou-me para não ter que suportar a fedentina outra vez ...

            E, quando vimos, apesar das dificuldades, somos pilotos.

            Cada um segue seu caminho: um vai ser Piloto de Linha Aérea, outro escolhe a Executiva, os que buscam fortes emoções – Aviação Agrícola e, uns que outros vão voando aqui, voando ali em aviões alugados,  um dia resolvem comprar um ultralevezinho básico e saem a fazer fotos por este mundão sem fim. Compram e detonam mais tequinhos, mas insistem ... Não sei qual o bicho mais teimoso, se o piloto ou o fotógrafo.

            Não há vacina que previna o ataque do vírus aéreo. Inoculado no organismo do infeliz, este fica condenado a sofrer da doença até que voa num cockpit meio estranho, apertado, na horizontal, sem asas e sustentado, não por reações aerodinâmicas, mas pelo emocionado adeus de amigos e familiares.

            Enquanto este dia não chega, a grande maioria dos pilotos é, de fato, uma classe privilegiadíssima. Conseguimos olhar nossos semelhantes e o mundo, quase  sempre de cima. Sabemos que somos invejados e não somos egoístas: vivemos tentando trazer para nosso mundo  outros amigos, parentes e, até mesmo, estranhos. Talvez porque saibamos que são raros os que têm o privilégio de voar até seu último dia e alguém deve ocupar nosso lugar.

            Voar, exige raciocínio rápido, coragem, decisão, atitude, reflexos agilíssimos, movimentos coordenados e precisos. Infelizmente a mãe natureza nos dá uma cota destas qualidades. À medida que o tempo escorre, vamos gastando nossas reservas, mas não nos damos conta ou fazemos de conta que não nos conscientizamos ...

            Este manicaca, um belo dia sofreu uma pilonagem, quando estava há alguns dias de completar o ciclo onde a gente passa a ser chamado de idoso.

            Era um dia de Vento Norte, fortezito, de quarenta e cinco graus, a estibordo. Quando vi, o tequinho deu uma guinada forte para a esquerda, ao contrário do que se esperaria num vento daqueles. Dei um motorzinho, realinhei a nave e fui para o toque final. Que se realizou duma forma toda escalafobética: quando o trem esquerdo tocou o solo, um outro ser assumiu o comando e o Kitfox deu outra  guinada, esta violentíssima e perdi o comando direcional totalmente. A tal guinada para a esquerda desequilibrou o aviãozinho de tal forma que a asa direita bateu com muita decisão no solo e, com nariz e asa freando, não deu outra: pilonamos.

            Não houve dano pessoal maior do que a troca de cueca e saí do estacionamento invertido me xingando de tudo e mais um pouco: “Velho burro, incompetente, não consegue dominar um teco-teco com um vento que nem é tão forte assim."

            E era desmoralizado por mim próprio.

            Aí chega um cidadão, que estava ajudando na poda do arvoredo da chácara e fala:

            - Seu Vilsom, o senhor viu que perdeu o pneu esquerdo?

            De fato, o dito estava com pressa  e resolvera correr na pista até onde se taxiava para o hangar, talvez para ir ao banheiro, sei lá, entende?

        


            Conto isto para exemplificar que, ao menos uma vez na vida me dei conta de que já não tinha os mesmo reflexos, embora a pilonagem fosse inevitável, pois a ponta-de-eixo se partira. E não houvera placaço. O pouso fora suave, tocando a roda direita (do vento) com suavidade, levando o teco inclinado para evitar que o vento entrasse por baixo e dificultasse o domínio. Quando a sustentação terminou, era hora de tocar com o trem esquerdo, que tinha só o triângulo, tipo uma estaca,  para cravar com vontade na grama...

            O fato é que, como diz a música “a gente mal nasce, já começa a morrer!”

            Embora seja bom não entregar a rapadura, pode ser ruim insistir demais com o faz-de-conta de que ainda somos aquele guri que subiu no tequinho há décadas para o seu primeiro voo – o famoso em linha reta horizontal, ou quase ...

            A grande maioria dos pilotos só para quando realmente não dá mais. Parece que a vontade de continuar voando é maior do que continuar vivendo.

            Se isto é bom, ruim ou nada disso, não tenho autoridade nem conhecimento para decidir. Mas um mosquito me cochichou estes dias que há uma hora em que temos de tomar a decisão: este foi meu último voo em comando.

            E até relembro do voo em que sofri uma pane de profundor, não total, mas que eu não sabia em qual momento ela se transformaria em perda completa do comando.

            “Seu burro! Há quanto tempo já devias ter parado! “

            E prossegui pensando: “Se me safar desta e conseguir pousar com vida, nunca mais piloto um avião. Aqui mesmo, nesta pista que providencialmente está próxima da pane, desmonto o tequinho, ponho em cima dum caminhão e o transformo em pilas o quanto antes.”

            Pousei, descobri a quebra de uma peça de fixação, fizemos com a ajuda do dono da pista e seu filho uma improvisação para sempre, segura e reforçada. Que durou dois anos e meio com, adivinhem qual piloto voando?

            Hoje, aos setenta e três invernos, estou quase completamente convencido de que nunca mais comandarei um avião.

            Será?

            Contatem-me por whats, telefone, telepatia ou tecnologias celestiais daqui a vinte anos.

            Prometo responder sem faltar com a palavra ou a verdade e vice-versa.

 

            Palma – São Vicente do Sul, 07/03/2026.